Amados irmãos, há vinte e quatro anos, no dia 24 de fevereiro, o Senhor me alcançou com Sua maravilhosa graça. Desde então, como membro das Assembleias de Deus, pude contemplar a multiforme atuação da igreja do Senhor em diferentes lugares do Brasil. Entre tantas diferenças administrativas e culturais, uma prática sempre me chamou a atenção: a aplicação da disciplina bíblica, especialmente no que diz respeito à suspensão da comunhão e à posterior reconciliação.
Em algumas igrejas, vi a disciplina ser aplicada com frequência e também testemunhei reconciliações públicas, glorificando a Deus pela restauração de vidas. Em outras, jamais presenciei tais atos — não sei se por serem tratados de forma reservada ou, tristemente, por não serem exercidos. Contudo, mais do que observar práticas, importa-nos compreender biblicamente o propósito da disciplina e sua íntima relação com o amor.
1. A DISCIPLINA COMO EXPRESSÃO DO AMOR DE DEUS
A Escritura é clara ao afirmar que a disciplina é prova do amor divino:
“Porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho.” (Hebreus 12:6 – ARA)
“Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem.” (Provérbios 3:12 – ARC)
E ainda:
“É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hebreus 12:7 – ARA)
O autor aos Hebreus nos conduz a uma verdade profunda:
“Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.” (Hebreus 12:10 – ARA)
Aqui está o cerne teológico da disciplina: ela é instrumento de santificação. Deus não disciplina por capricho, mas com propósito redentivo. Ele visa formar em nós o caráter de Cristo (Rm 8:29). A disciplina não é antítese do amor; é uma de suas expressões mais elevadas.
O texto sagrado prossegue:
“Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” (Hebreus 12:11 – ARA)
A dor não invalida o amor; antes, autentica o cuidado paternal de Deus.
2. CONSEQUÊNCIAS DO PECADO E RESPONSABILIDADE PESSOAL
Muitos, quando disciplinados, enxergam apenas punição. Contudo, a Palavra nos ensina que colhemos o que semeamos:
“Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7 – ARA)
Jeremias exorta:
“De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” (Lamentações 3:39 – ARC)
A disciplina, muitas vezes, nada mais é do que a consequência bíblica e pastoral de escolhas erradas. Quando a igreja disciplina de forma bíblica, ela não está criando sofrimento, mas reconhecendo a gravidade do pecado à luz da santidade de Deus:
“Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1:16 – ARC)
O pecado não pode ser trivializado, pois:
“O salário do pecado é a morte.” (Romanos 6:23 – ARC)
3. A DISCIPLINA NA IGREJA: FUNDAMENTO BÍBLICO
O Senhor Jesus estabeleceu princípios claros para tratar o pecado na comunidade:
“Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão.” (Mateus 18:15 – ARA)
Observe o objetivo: ganhar o irmão, não perdê-lo.
O processo continua (Mt 18:16–17), mostrando que a disciplina é progressiva e visa restauração.
O apóstolo Paulo também tratou do tema:
“Notai o que desobedece à nossa palavra dada por esta epístola, não vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão.” (2 Tessalonicenses 3:14-15 – ARA)
Aqui vemos o equilíbrio: afastamento disciplinar, mas sem desumanização; correção, mas com fraternidade.
Em 1 Coríntios 5, Paulo ordena disciplina severa em caso de pecado público, mas com finalidade restauradora:
“Seja entregue a Satanás para destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor.” (1 Coríntios 5:5 – ARA)
E quando houve arrependimento, Paulo orienta a restauração:
“De modo que deveis antes perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza.” (2 Coríntios 2:7 – ARC)
E acrescenta:
“Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor.” (2 Coríntios 2:8 – ARC)
Disciplina sem restauração é crueldade; restauração sem arrependimento é permissividade.
4. O PERIGO DA OMISSÃO E DA DUREZA EXCESSIVA
Há igrejas que disciplinam sem amor; há igrejas que, em nome do amor, não disciplinam. Ambas erram.
A omissão produz contaminação:
“Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?” (1 Coríntios 5:6 – ARC)
Por outro lado, a dureza excessiva pode destruir o arrependido. Paulo alerta:
“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão; e guarda-te para que não sejas também tentado.” (Gálatas 6:1 – ARA)
A disciplina deve ser aplicada com:
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Mansidão (Gl 6:1)
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Paciência (1 Tessalonicenses 5:14)
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Amor sincero (Efésios 4:15)
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Desejo de restauração (Tiago 5:19-20)
Tiago declara:
“Quem converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados.” (Tiago 5:20 – ARA)
5. O EXEMPLO SUPREMO: PEDRO E JESUS
Pedro negou o Senhor três vezes (Lc 22:54-62). Contudo, Jesus não o descartou. Após a ressurreição, Cristo o restaurou:
“Simão, filho de João, amas-me?” (João 21:15 – ARA)
E ao final:
“Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21:17 – ARA)
Cristo disciplina, mas também restaura. Ele corrige, mas não abandona os seus:
“Porque o Senhor não rejeitará o seu povo.” (Salmo 94:14 – ARC)
6. UMA EXORTAÇÃO FINAL À IGREJA
Que a igreja volte à prática bíblica da disciplina — nem omissa, nem cruel. Que lembremos:
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Disciplina é sinal de filiação (Hb 12:8).
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O objetivo é santidade (Hb 12:10).
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O método deve ser amoroso (2 Ts 3:15).
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O fim é restauração (2 Co 2:7-8).
Que não “sepultemos” nossos irmãos com olhares, murmurações ou distanciamento, pois:
“Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32 – ARA)
Se Deus nos perdoa para nos aproximar d’Ele, não podemos perdoar para nos afastar.
Que tratemos “todos com paciência” (1 Tessalonicenses 5:14 – ARA) e que o amor seja a motivação maior: “Todas as vossas coisas sejam feitas com amor.” (1 Coríntios 16:14 – ARC)
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