terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

DISCIPLINA É AMOR

Amados irmãos, há vinte e quatro anos, no dia 24 de fevereiro, o Senhor me alcançou com Sua maravilhosa graça. Desde então, como membro das Assembleias de Deus, pude contemplar a multiforme atuação da igreja do Senhor em diferentes lugares do Brasil. Entre tantas diferenças administrativas e culturais, uma prática sempre me chamou a atenção: a aplicação da disciplina bíblica, especialmente no que diz respeito à suspensão da comunhão e à posterior reconciliação.

Em algumas igrejas, vi a disciplina ser aplicada com frequência e também testemunhei reconciliações públicas, glorificando a Deus pela restauração de vidas. Em outras, jamais presenciei tais atos — não sei se por serem tratados de forma reservada ou, tristemente, por não serem exercidos. Contudo, mais do que observar práticas, importa-nos compreender biblicamente o propósito da disciplina e sua íntima relação com o amor.

1. A DISCIPLINA COMO EXPRESSÃO DO AMOR DE DEUS

A Escritura é clara ao afirmar que a disciplina é prova do amor divino:

“Porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho.” (Hebreus 12:6 – ARA)

“Porque o Senhor repreende a quem ama, assim como o pai, ao filho a quem quer bem.” (Provérbios 3:12 – ARC)

E ainda:

“É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hebreus 12:7 – ARA)

O autor aos Hebreus nos conduz a uma verdade profunda:

“Pois eles nos corrigiam por pouco tempo, segundo melhor lhes parecia; Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade.” (Hebreus 12:10 – ARA)

Aqui está o cerne teológico da disciplina: ela é instrumento de santificação. Deus não disciplina por capricho, mas com propósito redentivo. Ele visa formar em nós o caráter de Cristo (Rm 8:29). A disciplina não é antítese do amor; é uma de suas expressões mais elevadas.

O texto sagrado prossegue:

“Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça.” (Hebreus 12:11 – ARA)

A dor não invalida o amor; antes, autentica o cuidado paternal de Deus.

2. CONSEQUÊNCIAS DO PECADO E RESPONSABILIDADE PESSOAL

Muitos, quando disciplinados, enxergam apenas punição. Contudo, a Palavra nos ensina que colhemos o que semeamos:

“Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará.” (Gálatas 6:7 – ARA)

Jeremias exorta:

“De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados.” (Lamentações 3:39 – ARC)

A disciplina, muitas vezes, nada mais é do que a consequência bíblica e pastoral de escolhas erradas. Quando a igreja disciplina de forma bíblica, ela não está criando sofrimento, mas reconhecendo a gravidade do pecado à luz da santidade de Deus:

“Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1:16 – ARC)

O pecado não pode ser trivializado, pois:

“O salário do pecado é a morte.” (Romanos 6:23 – ARC)

3. A DISCIPLINA NA IGREJA: FUNDAMENTO BÍBLICO

O Senhor Jesus estabeleceu princípios claros para tratar o pecado na comunidade:

“Se teu irmão pecar contra ti, vai arguí-lo entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão.” (Mateus 18:15 – ARA)

Observe o objetivo: ganhar o irmão, não perdê-lo.

O processo continua (Mt 18:16–17), mostrando que a disciplina é progressiva e visa restauração.

O apóstolo Paulo também tratou do tema:

“Notai o que desobedece à nossa palavra dada por esta epístola, não vos associeis com ele, para que fique envergonhado. Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão.” (2 Tessalonicenses 3:14-15 – ARA)

Aqui vemos o equilíbrio: afastamento disciplinar, mas sem desumanização; correção, mas com fraternidade.

Em 1 Coríntios 5, Paulo ordena disciplina severa em caso de pecado público, mas com finalidade restauradora:

“Seja entregue a Satanás para destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor.” (1 Coríntios 5:5 – ARA)

E quando houve arrependimento, Paulo orienta a restauração:

“De modo que deveis antes perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza.” (2 Coríntios 2:7 – ARC)

E acrescenta:

“Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor.” (2 Coríntios 2:8 – ARC)

Disciplina sem restauração é crueldade; restauração sem arrependimento é permissividade.

4. O PERIGO DA OMISSÃO E DA DUREZA EXCESSIVA

Há igrejas que disciplinam sem amor; há igrejas que, em nome do amor, não disciplinam. Ambas erram.

A omissão produz contaminação:

“Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa?” (1 Coríntios 5:6 – ARC)

Por outro lado, a dureza excessiva pode destruir o arrependido. Paulo alerta:

“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão; e guarda-te para que não sejas também tentado.” (Gálatas 6:1 – ARA)

A disciplina deve ser aplicada com:

  • Mansidão (Gl 6:1)

  • Paciência (1 Tessalonicenses 5:14)

  • Amor sincero (Efésios 4:15)

  • Desejo de restauração (Tiago 5:19-20)

Tiago declara:

“Quem converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados.” (Tiago 5:20 – ARA)

5. O EXEMPLO SUPREMO: PEDRO E JESUS

Pedro negou o Senhor três vezes (Lc 22:54-62). Contudo, Jesus não o descartou. Após a ressurreição, Cristo o restaurou:

“Simão, filho de João, amas-me?” (João 21:15 – ARA)

E ao final:

“Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21:17 – ARA)

Cristo disciplina, mas também restaura. Ele corrige, mas não abandona os seus:

“Porque o Senhor não rejeitará o seu povo.” (Salmo 94:14 – ARC)

6. UMA EXORTAÇÃO FINAL À IGREJA

Que a igreja volte à prática bíblica da disciplina — nem omissa, nem cruel. Que lembremos:

  • Disciplina é sinal de filiação (Hb 12:8).

  • O objetivo é santidade (Hb 12:10).

  • O método deve ser amoroso (2 Ts 3:15).

  • O fim é restauração (2 Co 2:7-8).

Que não “sepultemos” nossos irmãos com olhares, murmurações ou distanciamento, pois:

“Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32 – ARA)

Se Deus nos perdoa para nos aproximar d’Ele, não podemos perdoar para nos afastar.

Que tratemos “todos com paciência” (1 Tessalonicenses 5:14 – ARA) e que o amor seja a motivação maior: “Todas as vossas coisas sejam feitas com amor.” (1 Coríntios 16:14 – ARC)